Faça amor, não faça guerra! Conversa sincera sobre Greves de Sexo - Reflexões em I Coríntios 7


Talvez você nem saiba, mas esse negócio de greve de sexo é um negócio antigo. Seja nas páginas da literatura grega ou em histórias da vida real o poder do sexo (ou no caso, da falta dele) é indiscutivelmente provado.

No teatro grego de Aristófanes, Lisístrata foi uma ateniense que liderou as mulheres das cidades gregas a instituírem uma greve de sexo até que seus maridos dessem fim à famosa guerra do Peloponeso cinco séculos antes de Cristo. Na história, somente graças às mulheres rejeitarem seus maridos a guerra entre Esparta e Atenas teria chegado ao fim e a paz teria sido estabelecida entre as duas cidades.

Lisístrata é apenas uma obra fictícia, fruto da imaginação literária de Aristófanes, mas no lado de cá, da vida real, a vida imita a arte (ou é a arte que imita a vida?) e a história de uma greve de sexo semelhantemente curiosa ficou gravada nos anais da história e rendendo inclusive um prêmio Nobel.

Talvez você nunca tenha ouvido a respeito, mas uma ativista liberiana, Leymah Gbowee, em 2002, liderou as mulheres de seu país em uma greve de sexo a fim de que cessasse a brutal guerra civil que acontecia neste país do oeste africano. A eficácia de sua iniciativa de unir mulheres de todas as confissões religiosas num ato coletivo de recusa à intimidade física com seus parceiros fez com que ela recebesse o Prêmio Nobel da Paz em 2003.

Interessante, não? Mas este não seria um acontecimento isolado. Em um episódio um pouco mais recente, em outubro de 2014, mulheres ativistas do Sudão do Sul apresentaram uma proposta de "greve de sexo" como incentivo para que os homens parassem de lutar na guerra civil que abalava o país a fim de que a paz fosse então reestabelecida.

Indiscutivelmente usar o sexo como ferramenta de poder é um recurso antigo. Mesmo que você nunca tenha ouvido falar em Lisístrata, Leymah Gbowee ou nas ativistas sudanesas, certamente conhece essa estratégia feminina. Não é de hoje que a greve de sexo é usada por muitas mulheres como forma de exercer algum poder sobre os homens. Você não se assustaria com o número de mulheres cristãs que se utilizam dessa estratégia para impor a sua vontade, expressar o seu descontentamento, externar seu desacordo com as atitudes de seus maridos. Talvez você mesma já tenha lançado mão desse tipo de 'estratégia de guerra' algumas vezes durante sua vida de casada.

Apesar de parecer um ótimo negócio, um grande trunfo que nós mulheres temos nas mãos, privar deliberadamente o nosso cônjuge da intimidade física não é uma estratégia inteligente. E a Palavra de Deus, suficiente e extremamente atual, não nos deixou sem ensino a respeito desse assunto.

Considerando a realidade de um contexto cristão, fica extremamente claro que quando me refiro a intimidade física entre um homem e uma mulher me refiro ao sexo dentro do contexto do casamento. Creio que a Bíblia deixa claro que a intimidade entre um homem e uma mulher está reservada para a realidade do casamento.

Tendo isso em mente, gostaria de fazer algumas reflexões em I Coríntios 7 e traçar alguns bons motivos para você abandonar de vez essa história de greve de sexo:

1. Você não tem direito de fazer greve de sexo.

Em primeiro lugar, deixando todas as questões sentimentais de lado, o sexo no casamento é uma questão de dever e de direito. Pensando na lei civil do nosso país, um casamento pode ser anulado de não houver consumação através de relação íntima. O sexo faz parte do acordo do casamento.

No casamento estabelecido segundo os termos divinos algumas obrigações também estão incluídas e entre elas o dever de manter intimidade sexual.

O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido. 1 Coríntios 7:3

Princípio de aliança voluntária de amor

Antes de você achar tudo isso um absurdo e desistir de ler esse texto, preciso te lembrar que a aliança conjugal entre duas pessoas é estabelecida voluntariamente. Sim, ninguém é obrigado a casar com ninguém, logo, nesse sentido, ninguém é obrigado a manter relações sexuais com ninguém.

O casamento é uma aliança voluntária de amor. Você não casou obrigada ou sem querer. Ao resolver casar, principalmente nos dias de hoje, você teve plena liberdade para escolher com quem e quando se casar. E certamente você escolheu alguém a quem ama e decidiu firmar com ele uma aliança duradoura de compromisso. Essa aliança inclui um compromisso de exclusividade sexual. Você e seu marido dependem mutuamente e exclusivamente um do outro para as questões sexuais.

O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido. 1 Coríntios 7:3


Algumas pessoas costumam julgar a Bíblia como machista por obrigar mulheres a terem relações sexuais com seus maridos sempre que eles quiserem. As coisas não são bem assim e algumas questões precisam ser esclarecidas. Uma delas é o princípio da reciprocidade.

Princípio da mutualidade


Como sempre costumo falar ao tratar de feminilidade e masculinidade, a relação entre um homem e uma mulher foi planejada para ser uma relação de companheirismo, de cooperação. Não há julgo desigual, não há privilégios. E se você considera o fato da liderança familiar estar à cargo do marido uma prova de que a Bíblia privilegia os homens você precisa rever o seu conceito de liderança. A Bíblia nunca se refere à liderança masculina em termos de privilégios, mas sim de responsabilidade. Sobre os ombros masculinos pesam as responsabilidades da liderança.

A relação entre homem e mulher é uma relação de mutualidade, de reciprocidade. Na questão sexual o princípio é explicitamente o mesmo. Ao se casarem homem e mulher se tornam uma só carne. Não existem privilégios para nenhum dos sexos. A obrigação de mutualidade sexual pesa sobre ambos.

A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher. 1 Coríntios 7:4

Sexo no casamento é uma questão de dever e de direito. É uma questão de aliança, uma aliança feita no altar. Como disse antes, ao casar você faz uma aliança com seu marido que inclui compromisso e exclusividade sexual. Negar aquilo que só você pode suprir para o seu cônjuge é quebrar uma promessa feita diante de Deus, além de demonstrar uma visão equivocada sobre a intimidade conjugal e de colocar seu casamento em risco.

2. Você também precisa de sexo

Ao negar sexo ao marido a mulher dá sinais de que alguns de seus conceitos estão errados. Ela acaba por demonstrar que para ela o sexo não é tão importante, que é algo que ela pode descartar sem que lhe signifique muito.

Por que no momento da discórdia a intimidade física com o seu marido é a primeira coisa que você utiliza para manipular? Certamente porque ela não é tão importante assim para você.

Naturalmente, na maioria esmagadora das vezes (mas não sem exceções), são os homens que tem maior necessidade nessa área. Não é à toa que a prática da greve de sexo está relacionada às mulheres. Algumas mulheres poderiam viver uma existência inteira sem ele. Muitas desenvolveram uma visão da intimidade física mais como obrigação do que como um deleite importante e necessário. Isso faz com que o uso da manipulação do sexo se torne tão fácil.

Princípio da reciprocidade

A questão que não pode ser deixada de lado é que o sexo foi planejado por Deus visando a necessidade de ambos e para o deleite de ambos. Sexo nunca foi uma coisa só para homens. Se você não desfruta da intimidade, não necessita dela ou a descarta sem fazer muita questão precisa examinar o que há de errado. Quando a mulher entende a importância e os benefícios da intimidade sexual com seu marido ela não abrirá mão dele tão facilmente. Ajustar a mutualidade na intimidade com seu marido pode ser o caminho para um relacionamento mais harmonioso, mais íntimo, mais rico, mais prazeroso.

Por que no momento da raiva a intimidade física com o seu marido é a primeira coisa que você descarta? Certamente questões emocionais fazem com que as mulheres não desfrutem da intimidade sexual se outras coisas não estiverem bem. Obviamente, nem sempre existe prontidão física e emocional feminina, mas essa não é a questão aqui em jogo. Uma coisa é evitar a intimidade por questões adversas, outra é utilizar o sexo como forma de manipulação. Neste ponto algumas questões também precisam ser consideradas:

Eu tenho que fazer sexo todas as vezes que meu marido tiver vontade?

Absolutamente não. Como pontuei anteriormente, naturalmente, na maioria esmagadora das vezes (mas não sem exceções), os homens que tem maior necessidade sexual. Como disse, questões adversas podem fazer com que a mulher não esteja pronta para a intimidade. O descompasso entre as necessidades do homem e da mulher são inevitáveis, mas os conflitos não. Numa aliança voluntária de amor existe espaço para considerar as necessidades e os limites do outro (tanto da sua parte como da parte dele) e para entrar em acordo.

“Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio.” 1 Coríntios 7:5

Relembrando os princípios de aliança voluntária de amor, de mutualidade e de reciprocidade fica claro que o natural é que haja compreensão de ambas as partes a fim de que as necessidades e os limites de cada um sejam observados. (Me permitam nesse ponto não entrar da questão específica da oração tratada no texto, esse não é o meu objetivo no momento)

Nessa relação de amor, de cooperação, de mutualidade e de reciprocidade sempre haverá espaço para o acordo, para colocar as necessidades do outro acima das suas quando isso for necessário e trouxer mais benefícios para o seu casamento. O consentimento mútuo é a chave nesse ponto da questão.

Creio que a regra áurea de Mateus 7:12 nos serve de guia nesse sentido:

Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas. Mateus 7:12

Entendo que para nós mulheres é difícil nos colocarmos na situação do outro, principalmente porque é difícil imaginar um homem se negando a ter relações com sua esposa. Mas mulheres que experimentam a falta de interesse ou falta de suprimento sexual por parte de seu marido sabe o quanto essa recusa é dolorosa. Colocar-se no lugar do outro pode ser um bom caminho para evitar atitudes egoístas e desastrosas.

3.A falta de sexo pode destruir o seu casamento

Talvez este seja o motivo mais forte para desistir de vez de usar o sexo como meio de manipulação. A grande questão é que muitas mulheres ignoram o fato de que com esse tipo de estratégia o tiro pode acabar saindo pela culatra. A falta de sexo pode destruir o nosso casamento.

“Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio.” 1 Coríntios 7:5

Não é novidade que o sexo exerce um poder elevado sobre os homens (e aqui eu não excluo as mulheres). Mesmo quando há consentimento mútuo, o casal não deve se privar de intimidade física por muito tempo sob o risco de que as tentações os levem a pecar.

As Escrituras nos advertem que ao privar nosso marido daquilo que somente nós podemos dar a ele (legitimamente) utilizando o sexo como moeda de troca ou como arma de manipulação acabamos expondo o nosso marido às investidas de Satanás. A carência de satisfação sexual dentro do casamento somada à falta de domínio próprio e às investidas do inimigo podem acabar destruindo o nosso casamento.

Isso não significa, entretanto, que qualquer dos cônjuges pode ameaçar o outro com a possibilidade de ser infiel se suas necessidades não forem satisfeitas. Um compromisso de fidelidade entre ambos foi firmado diante de Deus e deve ser sustentado apesar das circunstâncias (mas que a vida conjugal se tornará mais triste e o compromisso mais sofrido quando um dos cônjuges se nega a suprir o outro, não há dúvidas!).

Os conselhos dos versículos devem ser encarados como uma advertência, como um chamado ao bom senso e à sabedoria de pensar nas possíveis consequências dos nossos atos.


Longe de querer explorar todos os pormenores da questão e passar a ideia de que a intimidade física no casamento é assunto simples, quero, antes, chamar a sua atenção para todas a complicações envolvidas. Muitas vezes ignoramos ou relevamos a seriedade das questões sexuais dentro do casamento. Gosto de dizer que quando vamos casar nos preparamos para enfrentar problemas nas mais diversas áreas da vida conjugal (finanças, comunicação, etc.), mas não nos passa pela cabeça que enfrentaremos problemas na área sexual. Muitas vezes não imaginamos as complicações envolvidas nesta área que vemos como a única que não nos trará problemas.

Deus criou o sexo e preparou um lugar apropriado e seguro para que ele fosse experimentado. Deus conhece as nossas necessidades (e as do nosso marido também) e preparou o casamento como um ambiente saudável onde os princípios de compromisso, amor, mutualidade e reciprocidade permitem que nossas necessidades sejam atendidas.

Tem problemas, desentendimentos, discorda de alguma atitude, gostaria que seu marido fizesse algo diferente? Esqueça esse negócio de greve de sexo e tente resolver tudo isso de outra forma. Coloque diante de Deus, converse, procure a ajuda de um conselheiro maduro. Agir assim é mais sábio e melhor do que tentar resolver utilizando uma estratégia potencialmente desastrosa.

Nessa área tão delicada e potencialmente perigosa que é a intimidade entre marido e mulher, mais sábio é cuidar dos problemas que porventura já existam do que utilizá-la para criar ainda mais problemas.

Deus nos dê toda a sabedoria que necessitamos para edificar o nosso casamento.
Um abraço carinhoso,
Renata Veras.

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