E se eu não quiser ser esposa de pastor?


Por Isa Martins

Temos vivenciado uma boa fase para o cristianismo no que se refere a compreensão e conversão de cada vez mais pessoas às doutrinas da graça, e isso muito me alegra. Os “novos reformados” (se é que podemos chama-los assim) são, em grande maioria, jovens que ao conhecerem o verdadeiro evangelho e vivenciarem uma transformação radical em sua cosmovisão têm buscado com empenho transmitir as boas novas de Cristo a todos a sua volta. Muitos desses jovens, principalmente os homens, despertam em seus corações o desejo de se tornarem ministros do evangelho, atuando como pastores, missionários, evangelistas etc. Isso certamente é algo bom, pelo menos na maioria dos casos, mas também pode trazer consequências indesejadas e exigir decisões difíceis.

Um dessas consequências indesejadas se apresenta nos relacionamentos. Eu tenho aconselhado algumas moças que não sabem como reagir diante da decisão de seus noivos e namorados de se dedicar a vida ministerial. Em muitos dos casos, a vida do casal já havia sido idealizada e planejada quando, de uma hora para outra, os rapazes chegaram com a surpreendente informação de que tudo irá mudar. De repente, não mais que de repente, as moças se viram diante da possibilidade e da responsabilidade de se tornarem esposas de pastores e missionários. “E agora, o que eu devo fazer?”, perguntam elas, angustiadas.

A minha resposta diante dessa pergunta não costuma ser simples ou fácil. Cada caso tem suas especificidades e precisa ser analisado com cuidado, mas quero tratar aqui de um aspecto que costuma ser comum na maioria das situações das quais participei. As moças não querem seguir esse rumo. Elas já oraram, conversaram com pessoas mais velhas, com os pastores, com os pais, com os amigos, mas a cada conversa sentem menos desejo de acompanhar os rapazes na vida ministerial. Elas se sentem mal, pois se acham péssimas pessoas por não apoiarem seus futuros esposos. Se sentem menos crentes, pois todos em volta dizem que o certo seria elas estarem alegres e se sentirem privilegiadas por terem encontrado homens de Deus que querem dedicar suas vidas a obra de Cristo.

Contrariando a maioria das pessoas, eu não as julgo menos convertidas, muito pelo contrário, penso que elas estão sendo fortes em ter coragem de assumir a verdade sobre o que sentem e prudentes por analisarem a situação levando todos os fatores em consideração, não sendo guiadas só pelo que sentem por seus companheiros. Minha resposta é que elas não precisam ir se não quiserem e que a chance de dizer não é agora, pois após o casamento não haverá mais como voltar atrás. Mostro o quanto uma esposa é importante para o homem que se dedica ao ministério e o quanto seria ruim para os rapazes se elas os seguissem contra a própria vontade. Enfim, não dou repostas prontas, afinal, sou uma conselheira e não uma cartomante. Mas procuro tranquiliza-las e, sobretudo, compreende-las e ampará-las.

Você deve estar perguntando: “por que você dá esse tipo de conselho? Você é infeliz por ser esposa de pastor? Meu Deus, que tipo de crente é você?!”. Deixe então que eu lhe responda. Eu dou esse tipo de conselho porque acredito que seja necessário e útil. Não quero ser irresponsável ao mandar que essas moças façam aquilo que elas não querem só porque é isso que todos esperam que elas façam. Mais que isso, não quero ser responsável por ajudar a formar um casamento onde não há concordância e visão comum.

Eu sou muito feliz em ser esposa de pastor, apesar de todas as dificuldades que a vida ministerial demanda, pois creio que esse é o propósito do Senhor para minha vida e me alegro nele. Mas eu sou do tipo de crente que sabe que existem muitas outras formas de uma mulher agradar a Deus, mesmo que ela não queira dedicar-se a vida ministerial. Ela pode ser solteira para glória de Deus. Ela pode honrar a Deus e transmitir sua glória por meio de sua atuação profissional. Pode casar-se com um médico, um vendedor, um músico, um advogado e ser uma mulher e esposa sábia e fiel ao Senhor. Ser esposa de pastor não é a única possibilidade de agradar a Deus.

Infelizmente, conheci muitas mulheres de pastores frustradas e amarguradas, pois seguiram uma vida que não desejavam. Em consequência disso, conheço muitos pastores que sofrem por não poder contar com o apoio de suas esposas no ministério. Sei que o poder de Deus é capaz de transformar esses casos, e me alegro em ver alguns deles se modificando aos poucos. Mas sei também que muitas dessas situações poderiam ter sido evitadas se as moças tivessem dito não quando houve oportunidade, se a igreja não as tivesse julgado de forma tão dura e se todos em volta não tivessem dito que elas tinham que ir porque aquela era a única atitude correta.

Moça, se você está passando por isso, cuide para não tomar uma decisão precipitada da qual você venha a se arrepender mais tarde, quando não houver mais chances de voltar atrás. Meu conselho é que você ore ao Senhor, avalie o seu próprio coração, escute o conselho daqueles que conhecem a sua vida, e só então faça a sua escolha. Não tenha medo do julgamento dos outros, procure agradar a Deus por meio das suas atitudes. Sei que não é fácil tomar essa decisão. Nunca é. Mas o Senhor é fiel e gracioso. Busque-o e ele irá ajudá-la a passar por tudo isso com paz e tranquilidade. Minha oração é que Cristo seja o centro da sua vida e o guia dos seus passos, seja qual for o caminho que você escolher seguir.

Numa tentativa de auxiliar as moças que estão diante desse questionamento, elaborei algumas perguntas que irão ajuda-las a compreender melhor a situação na qual se encontram e a tomar a decisão correta. Como mencionei no texto passado, cada caso exige uma análise específica. Meu objetivo aqui não é dar uma resposta concreta para o problema, mas apenas elencar questões poderão ser uteis.

Você não quer ou você tem medo?

Responda com sinceridade, se o seu futuro esposo já fosse um pastor com ministério estabelecido você aceitaria se casar com ele? Se a sua resposta for positiva, o motivo da sua recusa não está no fato de não desejar ser esposa de um pastor, mas sim de ter medo de enfrentar todo o processo até que isso se consolide. Você tem medo das coisas darem errado, tem medo de, ao fim do seminário, nenhuma igreja convidá-lo para pastorear. Tem medo de terem que se mudar para um lugar distante e de enfrentarem dificuldades financeiras. Enfim, você tem medo das mudanças que irão acontecer na sua vida.

Deixa eu te dizer uma coisa. Ninguém está seguro. Não importa se o seu marido será médico, engenheiro ou advogado, ele jamais terá garantias de segurança e estabilidade. Tudo bem, comparado com o ministério pastoral, essas profissões parecem bem promissoras e transmitem bem mais segurança, mas, na verdade, isso é apenas ilusório. Como está escrito em provérbios 16, o homem faz seus planos, mas é o senhor quem lhe dirige os passos. Ou seja, nossos esforços e planos só terão êxito com a permissão do Senhor, e se ele está à frente, dirigindo os nossos passos. Não importa os rumos que trilharemos, estaremos sempre seguras.

Deus é quem nos concede sustento e segurança, e os meios que ele usa para trazer isso até nós não devem ser vistos como os responsáveis por isso. Não importa a profissão que o seu esposo terá. No fim das contas, todo o dinheiro que ele receberá virá das mãos do Senhor. Sendo assim, você não deve temer, pois se o propósito de Deus para a vida de vocês for o serviço ao Reino, ele mesmo irá cuidar para que tudo ocorra bem. Não existe patrão mais justo que o Senhor. Não existe segurança mais certa do que estar entregue em suas santas mãos. Se foi ele quem colocou esse desejo no coração de seu companheiro, ele será fiel para concretizá-lo.

A responsabilidade atribuída a uma esposa de pastor te assusta?

Talvez você não queira ser esposa de um pastor por achar que isso acarretará muitas responsabilidades para as quais você não se sente preparada. Eu também tive esse medo – na verdade, ainda tenho. Eu sei o quanto nosso coração se turba diante disso. Porém, posso lhe afirmar que ser esposa de pastor não é esse bicho de sete cabeças que pintam por aí. Você só precisa ser uma boa esposa, e isso não seria diferente se o seu marido escolhesse qualquer outra atividade. O seu principal dever será cuidar do seu cônjuge dando a ele condições de exercer o mistério com alegria e tranquilidade.

Você deve estar pensando que existem algumas circunstancias que diferenciam as esposas de pastores das demais mulheres, mas não é bem assim. O que uma esposa de pastor faz é apenas o que uma serva fiel de Cristo deveria fazer, independentemente de ser casada com um ministro. Servir a sua igreja quando houver oportunidades, ter comunhão com os irmãos e estar sempre pronta a ajudar, servir ao reino de Deus com seus dons e talentos, portar-se de forma sábia, ser exemplo para as outras mulheres a sua volta... todas essas coisas devem ser realizadas por aquelas que tiveram suas vidas transformadas pelo amor de Cristo e não são funções atribuídas e exigidas apenas a determinadas pessoas, como as mulheres de pastores.

Você não percebe nenhum “chamado” ministerial na vida do seu futuro esposo?

Bem, diferente dos exemplos anteriores, essa sim é uma questão preocupante. Se você não consegue perceber nenhuma habilidade no seu futuro esposo para exercer o ofício pastoral, talvez você esteja certa em não querer casar com ele. Mas para chegar a essa conclusão, é preciso que você observe alguns pontos específicos que irão ajudá-la a analisar a situação corretamente. Procure perceber se ele realmente não possui as características que são necessárias a um pastor ou se ele apenas ainda não conseguiu desenvolve-las plenamente.

Gostar de teologia é pré-requisito para aqueles que desejam o pastorado. Se o seu noivo ou namorado diz que quer ser pastor, mas não leva o estudo teológico com a seriedade que lhe é devida, ele está começando esse percurso muito mal. Um bom pastor precisa estar apto para ensinar as Sagradas Escrituras e ele só estará preparado para isso se tiver em constante aprendizado da Palavra, por meio de estudos bíblicos e da leitura de bons livros. Mesmo que ele seja aluno de um seminário teológico, se você não o vê empenhado em aprender sempre mais sobre a palavra de Deus, ele não está levando isso tão a sério quanto diz.

Por outro lado, ser bom em teologia não é o suficiente. É preciso que ele goste de comunicar-se, de transmitir aquilo que aprende a quem quer que seja. Se ele é um leitor e escritor voraz, mas foge do contato com as pessoas e prefere viver resguardado no silencio e tranquilidade do seu quarto de estudos, talvez o ministério pastoral não seja a alternativa mais indicada. Ele pode vir a ser um bom escritor e promover o crescimento e amadurecimento da igreja de Cristo através disso. Pode ser um ótimo produtor de materiais de ensino bíblico, ou um grande acadêmico das sagradas letras. Enfim, ser teólogo não é ser pastor. Se você já notou esse tipo de postura nele, procure orientá-lo e questioná-lo sobre essas questões, ele pode está confuso no que de fato deseja ser.

Você já está com a vida encaminhada e não quer abrir mão de suas conquistas e planos?

Essa também é uma questão que precisa ser tratada, pois talvez seja aqui que resida toda a sua resistência e recusa ao chamado ministerial. Você percebe a vocação pastoral de seu futuro esposo e apoia totalmente o desejo dele em se dedicar ao ministério, desde que isso não interfira nos seus planos pessoais. Se ele quer ir para um seminário teológico, que procure um por perto, assim você não precisará abrir mão de suas atividades e projetos, não é mesmo? Se você disse sim a essa pergunta, perceba que o egoísmo pode ser um pecado enraizado em seu coração. Você já parou para pensar que pode está colocando seus planos acima do seu relacionamento e, talvez, acima dos planos de Deus para a sua vida?

Não existe erro algum em sonhar e fazer planos, o problema é quando essas coisas se tornam prioridade além do devido, quando as transformamos em ídolos. Se você considera aquilo que você faz ou quer fazer mais importante do que a pessoa a qual você diz amar, há aí uma questão grave que precisa ser tratada com urgência. Você precisa aprender com Cristo que aquele que ama verdadeiramente é capaz de entregar a própria vida pelo outro, e se você não é capaz de abrir mão nem de uma faculdade ou de um emprego, reveja o que você sente não só pelo seu futuro esposo, mas pelo Deus-Homem que abdicou de sua glória por amor a sua vida.

Se ao ler esse tópico você se reconhece nessa situação, arrependa-se e busque em Jesus o perdão. Dedique-se a leitura da Palavra e a oração, a fim de entender a vontade do Senhor e de se dispor a cumpri-la. Se após esse tempo você perceber que de fato o propósito de Deus para a sua vida é seguir seu companheiro no ministério, obedeça. Vá, seja a auxiliadora idônea que ele necessita para realizar a obra de Cristo. Siga o caminho que o Criador destinou para vocês, mesmo que isso lhe custe muito, mesmo que custe tudo. Não há perda alguma que se possa comparar com a glória que Deus tem reservado para aqueles que cumprem a sua vontade. Lembre-se do que está escrito no evangelho de Mateus: “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”. Não tenha medo de abandonar nada por causa de Cristo, pois os planos dele para sua vida são infinitamente melhores que os seus.

Espero que essas reflexões lhe sejam uteis e oro para que o Senhor lhe ajude a tomar a decisão correta. Quanto a mim, tem sido um imenso privilegio ser esposa de um pastor. Honestamente, não consigo imaginar uma vida mais feliz do que a minha, e se pudesse voltar no tempo, faria essa louca escolha novamente. Minha caminhada na vida ministerial ao lado do meu esposo está apenas começando. Sei que muitas batalhas me esperam no percurso, mas encontro força no evangelho para enfrentá-las, sabendo que no final do caminho encontrarei Cristo e desfrutarei de sua eterna glória, e isso é o que faz tudo valer a pena.

“Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós cada vez mais abundantemente um eterno peso de glória”. (2 Coríntios 4:17)

Um abraço, dessa jovem esposa de pastor que tem aprendido a se alegrar em fazer parte da obra de Cristo na terra.
Isa Martins

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1 comentários

  1. Paz Isa
    Muito bons seus textos, tenho sido edificada ao lê-los.
    Meu pai é presbítero e passei minha infância e adolescência vendo seu empenho na obra e minha mãe o acompanhando em tudo.
    Quando pensei em namorar minha oração era justamente a que você citou no início do post: 'não quero Senhor um obreiro, eles não tem tempo para nada'.
    O tempo passou casei e meu esposo não desempenhava nenhuma atividade na igreja, já eu sempre envolvida principalmente com o trabalho infantil e de oração. Depois de quase cinco anos de o chamado veio para ele ser auxiliar.
    Hoje experimento o crescimento dele no serviço e tenho crescido junto.

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