A Fabulosa Escola da Infertilidade. (Não despreze a sua infertilidade)


Estudar o capítulo 1 do livro de Mateus com um grupo de mulheres da igreja me fez admirar mais uma vez a relação do nosso Deus com mulheres inférteis e recordar algumas lições aprendidas durante os quase cinco anos em que frequentei a escola da infertilidade.*

Não há como ignorar a relação de Deus com mulheres estéreis – e não são poucas. Não há como não se admirar com a presença de mulheres com problema de esterilidade (nas linhas ou entrelinhas) na genealogia de Cristo: Sara, Rebecca, Lia. Porque Deus escolheria exatamente mulheres assim para cumprir a missão de compor a linhagem do Messias?

O fato é que nenhuma dessas mulheres poderia bater no peito e arrogar para si os louros pelo nascimento do Salvador. Não tinham do que se orgulhar. O sucesso do plano não poderia depender delas, de suas capacidades. Eram incapazes, impotentes e por isso necessitadas. Eram necessitadas e por isso não tinham alternativa senão depender completamente de Deus. E, como costumo dizer para tantas coisas, Deus é mais glorificado quando não há mais nada a dizer além de que tudo é por causa dele, por meio dele e para ele (Rm 11:36) – até mesmo numa gravidez.

Creio que há um lugar especial no coração e no plano de Deus para mulheres estéreis. Não há dúvidas de que Ele as ama de maneira especial. Seja a sua experiência a de uma infertilidade breve, longa, passageira, permanente ou incerta, creio que Deus trabalha de maneira especial com cada uma de nós, chamando-nos para mais perto de si e nos dando a oportunidade fabulosa de aprender mais sobre nós mesmas e mais sobre o nosso Deus através da escola da infertilidade.


1.A escola da infertilidade mostra quem está no controle


Dentre as potencialidades maravilhosas dadas por Deus à mulher, certamente a maternidade se destaca. A capacidade de gerar uma vida, ainda hoje, está entre as maiores maravilhas do corpo humano e mistérios da ciência. A maternidade é algo maravilhoso. Não apenas sob o aspecto biológico, mas também sob o aspecto soteriológico. Deus planejou que através da atividade maternal de uma mulher viria aquele que salvaria toda a humanidade.

Não é de admirar vermos movimentos de verdadeira adoração ao ventre e ao poder feminino. Pensar que em nosso ventre e sob nosso querer está o poder da vida faz com que algumas mulheres olhem para si mesmas como pequenas deusas.
Mas aí aparece a infertilidade e nos mostra que não somos assim tão poderosas e autônomas sobre o nosso corpo, sobre a nossa vida, sobre nossos planos. Parece que, no final das contas, nem tudo está sob o nosso controle e nem tudo depende de nós.

A infertilidade me ensinou que não estou no controle de absolutamente nada.

Se você lida com a infertilidade hoje ou já lidou com ela, certamente se identificará com a seguinte narrativa. Casamos. Decidimos que a melhor hora de ter um filho é chegada. Suspendemos os comprimidos anticoncepcionais, consultamos o calendário, escolhemos um dia especial, preparamos um cenário ideal (uma viagem, um lugar especial), executamos o nosso plano e já contamos com o filho que há de chegar. Semanas mais tarde esbarramos com a realidade de que nossos melhores planos foram frustrados.

O fato é que sem Deus nada podemos fazer – e isso vale até mesmo para aquelas coisas que aparentemente podemos fazer sozinhas. Não nos parece que precisamos de Deus para comer, para andar, para acordar em mais um dia. Não precisamos de Deus para gerar um filho, afinal, mulheres geram todos os dias, muitas vezes até mesmo sem querer. Esquecer que há um Criador e um Sustentador que nos dá a potência e a permissão de realizar cada mínima coisa nos leva a pensar que somos autônomos em muitos aspectos. Só nos damos conta da nossa falta de autonomia e dependência completa quando o que queremos fazer é frustrado.

O potencial para a maternidade causa em nós uma ilusão de poder, de controle. Passamos a tratá-la como algo completamente sob o nosso domínio, principalmente depois dos métodos anticoncepcionais cada vez mais eficientes. Não teremos filhos enquanto não quisermos, mas teremos filhos assim que decidirmos. Ledo engano.

A infertilidade nos mostra quem de fato nós somos. Não somos pequenas deusas, não mandamos no nosso corpo, não decidimos os tempos e as horas. Não somos autônomas nem mesmo sobre aquilo que fomos criadas para fazer: gerar.

A realidade da falta de autonomia absoluta com relação à maternidade se mostra de várias maneiras. Seja nas gestações não planejadas, quando mesmo os métodos contraceptivos comprovadamente seguros falham, seja na incapacidade de engravidar quando julgamos já ser a hora.

A infertilidade (ou os deslizes e falhas) nos lembra que que cada mínima coisa, desde as mais fantásticas às mais ordinárias, estão sob controle último do Deus soberano, e não sob o nosso. Teremos (e não teremos) filhos de acordo com o ‘controle de natalidade divino’. Não há absolutamente nada que possamos fazer a respeito.

A infertilidade nos força a admitir que as rédeas não estão nas nossas mãos e nos força a depender de Deus. Mesmo que isso não seja fácil de admitir. Mesmo que só admitamos depois de esgotadas todas as possibilidades de resolver através de outros meios.

Uma das grandes lições aprendidas na escola da infertilidade é sobre não estar no controle e sobre Quem está no controle. A infertilidade aponta para nossa incapacidade. A incapacidade aponta para a nossa necessidade. A nossa necessidade aponta para Deus e para nossa dependência completa dele.

2.A escola da infertilidade revela o nosso coração

A experiência da infertilidade também me mostrou os ídolos do meu coração.

A caminhada pelos territórios da infertilidade nos leva ao encontro de outras verdades. À medida em que temos nossos planos frustrados, somos apresentadas ao nosso verdadeiro coração. Poucas coisas revelam tanto o nosso coração quanto a frustração. Desejos frustrados nos fazem identificar aquelas coisas que nos são mais caras e o efeito que a falta delas causa sobre nós.

A infertilidade nos faz encarar a realidade da fonte da alegria e satisfação do nosso coração. Nos faz avaliar se seremos realmente capazes de viver feliz se não tivermos o nosso desejo materno realizado. A infertilidade nos dá o xeque-mate, nos coloca contra a parede e exige saber se Deus é realmente o suficiente.

Se não somos capazes de viver de forma realizada e feliz a menos que tenhamos filhos, sabemos então que ter filhos ocupa um lugar que cabe exclusivamente ao nosso Deus.

E se Deus não nos der filhos? A pergunta é inevitável. A resposta, reveladora.

Olhando para a experiência de infertilidade de Raquel, sua resposta histérica não foi outra se não “dá-me filhos senão morro!” (Gn 30:1) Raquel me parece não esconder ídolos apenas debaixo da saia (Gn 31:34), mas também no coração.

Não somos tão diferentes. A infertilidade mostra com facilidade o ídolo que escondemos debaixo das saias do nosso coração, aquilo que julgamos não poder viver sem. Nos mostra aquilo que somos capazes de fazer, de abrir mão, de arriscar para mantê-los.

Por vezes a constatação não é outra se não a de que Deus não nos parece suficiente. Junto com essa, a constatação da nossa falta de amor. E nesses momentos, não nos resta nada além de pedir que Ele aumente o nosso amor até que Ele, e nada mais além dele, seja plenamente suficiente.

A infertilidade nos força a encarar o fato que amamos pouco a Deus. E que, se realmente amamos a Cristo, precisaremos percorrer a sofrida trilha que leva ao lugar do sacrifício dos nossos ídolos mais preciosos. O caminho sofrido do sacrifício também o caminho que leva à liberdade e à satisfação em Cristo.

3.A escola da infertilidade ensina sobre o propósito de cada coisa

A experiência da infertilidade me fez avaliar os motivos pelos quais eu queria ter filhos. Queremos filhos por muitos motivos, muitos deles são errados.

Queremos filhos para preencher um vazio (ídolo). Queremos filhos para provar algo a alguém. Queremos filhos para não ficar para trás. Queremos filhos para satisfazer as expectativas de outros sobre nós. Queremos filhos para que nosso marido nos ame mais. Queremos filhos porque estamos passando por crises no nosso casamento.

Queremos filhos por tantos motivos, mas não entendemos o real motivo de Deus nos permitir ou não tê-los.

A missão materna está relacionada com a glória de Deus. Gerar filhos tem objetivo e foco missiológico e doxológico e não pessoal. O foco é Deus, não nós. A ordem para se multiplicar e encher a terra tem a ver com espalhar a glória de Deus, em multiplicar pessoas que refletem a glória de Cristo por terem sido criados à sua imagem e semelhança por todo o mundo.

A infertilidade nos dá a oportunidade de avaliar nossas crenças e valores a respeito da maternidade e de aprender sobre o verdadeiro lugar e valor de cada coisa na vida da mulher. Afinal, por que você quer tanto um filho?

O exemplo de infertilidade de Lia (Gn 29:31-35) nos ensina muito a esse respeito. Lia teria mil motivos para querer filhos desesperadamente. Mal amada, desprezada e estéril, se viu num duelo de úteros com sua irmã movida pelo desejo de ser amada por seu marido. A cada nova chance, a ilusão de que um filho resolveria seus problemas românticos e de realização pessoal. Até, finalmente, entender que o foco era Deus e glorificá-lo por isso.

A infertilidade nos dá a chance de reavaliar as razões do nosso coração, nossas motivações. Nos obriga a esperar um pouco mais, organizar a casa, colocar as coisas no lugar. A enfrentar os problemas de relacionamento, os problemas conjugais, as frustrações pessoais, ao invés de empurrar tudo isso para debaixo do tapete materno.

Filhos não são fonte de realização e sentido (ídolo), filhos não são meios para conseguir amor, filhos não são remédio para casamentos em crise. Vistos dessa forma, poderão ser fonte de ainda mais frustração. Os filhos não são meios para nossa satisfação, mas meios para a glória de Deus. E aquele que é o maior interessado em sua glória os enviará de acordo com a sua vontade, se essa for a sua vontade.


4.A infertilidade ensina sobre o Senhor do tempo

Qual o tempo certo para ter filhos? Quem de nós realmente saberia? Temos a ilusão de saber qual o melhor momento para engravidar até Deus graciosamente nos mostrar que o tempo dEle é melhor que o nosso.

Nada contra planos, tudo contra achar que nossos planos são sempre os melhores. É importante compreender que nossa visão limitada da realidade faz com que nossos planos sejam igualmente limitados. Entender isso faz com que soframos menos quando as coisas não acontecerem no nosso tempo.

Graças a Deus - todo sábio, soberano e amoroso – que frustra nossos planos imperfeitos a fim de realizar seu plano perfeito em nós! Amém! A infertilidade nos ensina a ser um pouco menos ansiosa, a descansar e agradecer pelo controle divino do tempo.

A experiência de infertilidade de Sara aponta para o fato de que o relógio de Deus nem sempre bate em compasso com o nosso relógio racional ou biológico. Quando, nos planos e no corpo de mulher, a hora já havia passado, o TEMPO CERTO chegou (Gn 21:1).

Arriscaria dizer que nenhuma mulher que passou pela infertilidade lamenta o fato de não ter tido seu filho no momento em que julgava ser o melhor. O tempo de Deus é sempre o melhor, embora não reconheçamos isso enquanto ainda estamos travando a batalha da infertilidade.

Além disso, não podemos desprezar o tempo “perdido”, uma vez que passar pela escola a infertilidade coopera para o nosso bem e nos transforma um pouquinho mais à semelhança de Cristo, nos fazendo enxergar a maternidade de uma maneira pelo menos um pouco diferente.

Não despreze a sua infertilidade!

Como alguém que sofreu por quase cinco anos as dores da infertilidade, sofro com o sofrimento de quem hoje trava a batalha para ter um filho. Deus nos fez com o potencial maravilhoso da maternidade e toda a natureza geme por causa das consequências terríveis e dolorosas do pecado. É natural que soframos e gemamos também.

Nossa pretensão de controle toma conta a cada nova tentativa. Nossa fonte de alegria e satisfação é provada a cada atraso no calendário. Nossa fé vacila a cada exame negativo. Nosso amor parece falhar a cada ciclo que inicia.

E nessa montanha russa biológica, emocional e espiritual, o desafio é se agarrar à certeza, mesmo que as vezes vacilante, de que há um lugar especial no coração e no plano de Deus para mulheres estéreis. Assim como em toda história, Deus não é alheio à dor, mas olha com paixão e atenta para o sofrimento.

Seja a sua experiência a de uma infertilidade breve, longa, passageira, permanente ou incerta, creio que, através dela, Deus trabalha de maneira especial com cada uma de nós, chamando-nos para mais perto de si e nos dando a oportunidade fabulosa de aprender mais sobre nós mesmas e mais sobre o nosso Deus. Então não despreze a sua infertilidade.

E lembre-se: Deus é mais glorificado quando não há mais nada a dizer além de que tudo é por causa dele, por meio dele e para ele (Rm 11:36).

Um abraço carinhoso,
Renata Veras.

*Por aproximadamente cinco anos lutamos com a infertilidade. Vivenciamos desde a pretensa sensação de poder e de controle sobre a maternidade e o tempo, passando pelas frustrações repetidas, indagações, questionamentos, desânimo, incertezas. Vivemos as tristezas dos testes negativos, dos exames invasivos, caros e dolorosos. Enfrentamos as crises conjugais potencializadas pela incapacidade de ter filhos. Nos deparamos com dos dilemas éticos e financeiros das opções que nos eram apresentadas. Ponderamos sobre as possibilidades alternativas. Experimentamos a sensação de ter uma comunidade inteira orando fervorosamente pelo nosso casamento e pelos nossos futuros filhos. À caminho da última alternativa para resolver o problema (inseminação), Deus interveio e naturalmente nos abençoou com nossa primeira filha, que nasceu no TEMPO CERTO, no dia em que completávamos 7 anos de casados. Exatos quatro anos depois, sem que nos preveníssemos já considerando nossa dificuldade com a fertilidade, nasce nossa segunda filha. Hoje Valentina tem 8 anos e Carolina 4.

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7 comentários

  1. Olá Renata, mais uma vez deixo aqui meu agradecimento a Deus pela sua vida e pelas palavras de sabedoria e encorajamento que Ele em toda Graça faz chegar a mim atravea do seu blog ! Obrigada por compartilhar o seu testemunho é edificante pra mim que estou nesse processo de aprendizagem , incertezas e Fé...um abraço !!!

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  2. Deus é tão Bom e como me consola ouvir tão lindas palavras Renata. Continue sendo fonte de benção para tantas mulheres desesperadamente necessitadas de ouvir Palavras de vida como as suas, vindas da fonte do Nosso Eterno e Amoroso Pai.
    Um grande abraço!!

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  3. Apesar de você tratar de uma área específica, posso identicar como a mesma metodologia pode ser aplicada em outros assuntos de nossas vidas. Tenho percebido a soberania de Deus, minha incapacidade e corrupção, a idolatria do coração,esperança e redenção em Cristo em outras áreas da minha vida. Percebo Sua misericórdia me conduzindo, me confrontando em relação ao pecado e me levando a dependência de sua Graça.

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  4. Renata, muito obrigada por cada palavra. Oro para quê eu usufrua de cada aula nesta escola, pois estou sim matriculada. Até quando? Não sei! Mas que Deus seja glorificado sempre é em tudo! Que Deus te abençoe é te use cada vez mais. Beijos!
    Ass.: Priscilla Guerra.

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  5. Obrigada Renata! Como Deus e bom em todas as coisas.Acordei agora a pouco, e estava comentando sobre nosso problema de infertilidade e assim que abri seu blog me deparei com esse texto que falou tanto ao meu coração, assim como muitos de seus textos.Meu coração se encheu de esperança e tenho certeza absoluta que você é instrumento do Senhor!Um grande abraço, e saiba que voces estao sempre em nossas orações!

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  6. Passando por esse momento! E como esse texto veio acalentar o meu coração!❤

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  7. Não sou infértil mas passei pela dor de aborto de 5 bebês, sem qq problema aparente Até hoje não tenho nenhuma resposta mas apesar de tudo entendi a soberania de Deus em tudo Deus é bom e misericordioso. Em todo o tempo.

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