Duas mulheres notáveis - Lições sobre postura, possibilidade, prioridade e profundidade.


“O Senhor não afirmou ter sido má a parte de Marta, mas disse ter sido ótima a parte escolhida por Maria, que não lhe será tirada. A parte de Marta, a serviço da indigência, será tirada quando terminar a indigência. A recompensa de uma boa ação transitória é o repouso perene. Na contemplação, Deus será tudo em todos (1Co 15:28), porque fora dele nada mais se poderá desejar, e nos bastará sermos iluminados por ele e dele gozarmos [...] Uma imagem desse gozo foi-nos oferecida por Maria sentada aos pés do Senhor, atenta às suas palavras. Livre de toda preocupação e de certo modo arrebatada perante a verdade, o quanto possível nesta vida, prefigurou a realidade futura e eterna. Marta, sua irmã, estava atarefada no trabalho, embora útil e bom, mas transitório, até vir o descanso que perdura; quanto a Maria, repousava na palavra do Senhor”
Agostinho - A Trindade



*Este conteúdo foi originalmente apresentado em forma de palestra e editado posteriormente para o blog.



Ao parar para considerar a narrativa da visita de Jesus à casa de Marta e Maria logo nos vem à mente o contraste das atitudes das duas irmãs. Apesar da ênfase natural no contraste, gostaria de propor uma aproximação diferente dessa narrativa. Fugindo um pouco do mito do binômio Marta x Maria, convido você a uma análise mais ampla dessas duas mulheres notáveis a fim de tirarmos lições preciosas para nossas vidas.

Mais do que rejeitar e evitar terminantemente uma ou elevar uma em detrimento da outra, proponho meditar acerca de características e qualidades preciosas de cada uma dessas mulheres e de como cada uma delas, apesar de suas limitações, características pessoais e escolhas, fizeram parte do ministério do nosso Senhor Jesus Cristo e foram consideradas dignas de terem suas histórias registradas nas Sagradas Escrituras para o nosso ensino e benefício.

Existem três princípios que me saltam aos olhos analisando a passagem de Lc 10:38-42 e em algumas outras passagens que também tratam dessa dupla de mulheres.

Esses princípios são o da POSTURA, POSSIBILIDADE, PRIORIDADE E PROFUNDIDADE.

Essas são as quatro lições que podemos aprender através das breves narrativas bíblicas sobre os acontecimentos da vida dessas duas irmãs.

LIÇÃO SOBRE POSTURA

Algo interessante de se notar sobre Maria é sua postura com relação a Jesus. Maria de Betânia aparece três vezes nos evangelhos e nas três vezes a sua postura é a mesma: aos pés de Cristo.

Apesar da semelhança, a postura de Maria nessa ocasião específica nos traz uma lição especial. Enquanto nas outras ocasiões (Jo 11:32; Jo 12:3) a postura era de adoração ou súplica, aqui em Lucas 10 ela toma um caráter especial e inovador para a época.

A POSTURA de Maria não era apenas uma postura de adoração. Era uma postura de discípula. E uma mulher sentada aos pés de um rabino era algo completamente contra cultural. Ser um pupilo aos pés de seu mestre era algo reservado apenas para homens.

A POSTURA de Maria, aos pés de Jesus, quebrava todas as convenções judaicas sobre a relação de uma mulher e um mestre, sobre uma mulher aprendendo sobre a lei.

Algumas citações deixam clara a atitude dos judeus para com a mulher e o ensino da lei:

“deixe as palavras da torah serem queimadas, mas não dadas às mulheres”

“Louvado seja Deus que não me fez gentio, louvado seja Deus que não me fez mulher; louvado seja Deus que não me fez um homem ignorante.”
Os judeus de Jerusalém chegaram a debater se realmente as mulheres tinham alma e julgavam ser um completo desperdício de tempo e energia ensinar a lei às mulheres.

A despeito dos costumes e da cultura completamente hostil, Maria desafia os padrões equivocados para assumir a postura de uma verdadeira discípula aos pés do seu rabi.

E o que significa ser uma discípula?

O Discípulo é um estudante ou aprendiz.
Discípulo é aquele que segue (literalmente) seu rabi (“mestre”) para onde quer que ele fosse.
Discípulo é aquele que aprende com seu ensino e busca ser como seu mestre.

Vivemos tempos de ‘cristãos nominais’ e isso é bem verdade no meio de nós mulheres. Mulheres que se dizem ‘cristãs’ e nem ao menos conhecem o Seu Mestre. Muitas de nós desprezam a intimidade, a dedicação intencional, o tempo gasto aos pés do Mestre.

A POSTURA de Maria nos constrange e nos motiva.
Mas que ‘crentes’ ou ‘adoradoras’, devemos assumir a postura de verdadeiras discípulas do Cristo. Isso significa dedicar tempo, esforços para aprender do nosso Deus. Precisamos assumir a POSTURA de verdadeiras discípulas de Cristo.

Aprendemos também com a POSTURA de Cristo.

Ao permitir que uma mulher sentasse aos seus pés, Cristo endossa e honra a atitude daquela mulher, Cristo quebra de vez com a visão equivocada que tinham da mulher e resgata a intenção original do Criador¹.

“Jesus não apenas escolheu mulheres para ilustrar o Seu ensino, mas também estava preocupado no fato de que as mulheres deveriam estar autorizadas a sentar-se aos pés de seu ensino” (Borland). E é daqui tiramos a lição da POSSIBILIDADE.

LIÇÃO SOBRE POSSIBILIDADE

Enquanto a cultura sustentava que não era possível que uma mulher aprendesse com zelo, dedicação, Jesus, intencionalmente, através desse evento, corrige a compreensão errada e ensina que as mulheres TÊM a POSSIBILIDADE de beber dos ensinos de Cristo.

A atitude dos judeus com relação às mulheres no que diz respeito ao estudo das Escrituras estava muito distante dos princípios eternos desenhados por Deus para a mulher na criação. Deus criou a mulher com capacidades intelectuais, relacionais e estabeleceu um relacionamento de intimidade e cuidado com ela que deveria ser preservado e nutrido. Em Gênesis 1:28 Deus abençoa a ambos, ordena a ambos, visita a ambos, toma satisfação a ambos). Ambos têm não somente a POSSIBILIDADE, mas também a responsabilidade de conhecer seu Deus, relacionar-se com Ele, nutrir uma relação de intimidade com Ele.

Temos a POSSIBILIDADE de aprender de Cristo.
Essa possibilidade nos é dada através da forma como Deus nos criou.
Nos é dada por ter Cristo morrido por nós.
Nos é garantida pelo Espírito Santo habitar em nosso coração.
Nos é exemplificada por Cristo ao intencionalmente incluir outras mulheres que beberam da fonte de seus ensinos e são exemplos para nós hoje (Mulher samaritana, discípulas que viajavam com Jesus, testemunhas da ressurreição, Galeria de Romanos 16)

Encerrando essas duas primeiras lições, concluo dizendo que:
a POSSIBILIDADE resgatada, corrigida e honrada por Cristo deve corrigir a nossa POSTURA.

Existe uma POSTURA equivocada enraizada até mesmo em nossos corações que nos faz crer que o estudo em profundidade, o zelo na busca pelo conhecimento de Deus não é algo para as mulheres. E nada pode estar mais longe do desejado por Deus. Nossa postura deve ser a de discípulas aos pés do seu mestre.

A próxima lição que podemos tirar da narrativa sobre o encontro de Cristo com Marta e Maria é o que geralmente é mais enfatizado. Trata-se da lição da PRIORIDADE e esse ponto merece uma atenção especial.

LIÇÃO SOBRE PRIORIDADE

O princípio da prioridade é retirado da reação de Marta à atitude de Maria. Na narrativa de Lucas vemos Marta desempenhando o seu papel social, o papel social comum e esperado pelas mulheres. Ao ver sua irmã não performando o papel que lhe cabia, Marta dirige-se a Jesus. É interessante notar que a pergunta de Marta é uma pergunta retórica (40). O grego deixa claro que Marta pede que Jesus mande Maria ajudá-la certa de que sua resposta seria positiva.

Isso pode indicar que a própria Marta, influenciada pela cultura da época, acreditava que aquilo que sua irmã estava fazendo não lhe cabia, não era o papel que lhe era esperado, o mais nobre e desejável para uma mulher.

Cristo, então, aproveita para lhe dá uma lição sobre PRIORIDADES. E a lição principal aqui é que “Discipulado com Jesus é a prioridade, mesmo acima de categorias de serviço normalmente elogiadas” (Bock)

Esse texto tem sido muito mal compreendido.

Alguns o interpretam de maneira limitada dizendo que ele ensina que “mulheres devem preferir estudar teologia acima das preocupações com afazeres domésticos”. As aplicações, entretanto, são bem mais amplas e significativas do que isso.

Cristo não ensina que devemos abandonar todas as nossas tarefas e os nossos papéis sociais para nos dedicarmos exclusivamente e integralmente a aprender e a nos relacionar com nosso Mestre.

O ensino de Cristo é que, acima de todos os papéis sociais e atividades humanas, existe algo que é melhor. Não significa que outras tarefas e graças cristãs devam ser ignoradas, mas que existe algo que é mais importante que todo o resto. Em todas as nossas escolhas, em todas as nossas atividades devemos reconhecer a prioridade de nosso papel de discípulos de Cristo.

Não podemos fugir do mundo. Devemos agir e trabalhar para o bem do mundo. E tudo o que fazemos deve ser um ato de adoração a Deus. É preciso deixar de lado a visão dicotômica que divide trabalho (vida secular) e adoração (vida religiosa). E muitas vezes as pessoas interpretam essa passagem tomando por base essa visão. Como se na vida só tivéssemos duas opções: trabalhar como Marta ou adorar como Maria. Mas adoração e serviço não são duas coisas mutuamente excludentes.

Todo o nosso agir, em todas as esferas (e isso inclui uma simples lavagem de louça) deve ser um exercício de adoração a Deus (e tudo o quanto fizerdes... Colossenses 3:17,23 - I Co 10:31). Mais do que tomar partido por Marta ou Maria, é preciso reconhecer a necessidade de cumprir nossos papéis com zelo sem desprezar a importância e a necessidade do nosso relacionamento com Cristo.

Nossa tendência natural é nos perder em nossas ocupações e deixar o nosso relacionamento com Cristo em último lugar (leitura da Bíblia, oração). Deixamos o Senhor de lado e só saímos perdendo. O problema não é o nosso trabalho, mas permitir que os nossos afazeres nos desgastem e nos distraiam do que é nossa PRIORIDADE.

Neste mundo temos vários papéis: somos mãe, esposa, serva. Mas dentre todos os papéis, o PRIORITÁRIO, o de maior VALOR, o mais VITAL é o de discípula de Cristo.

A última lição que gostaria de salientar é sobre profundidade

LIÇÃO SOBRE PROFUNDIDADE

Muitas vezes saímos de estudos que tratam dessa passagem de Lucas com uma visão pessimista de Marta e eu gostaria de desfazer essa visão para encerrarmos nosso estudo. E a lição que aprenderemos com Marta é exatamente sobre PROFUNDIDADE. Veja João 11:20.

A Mesma Marta que havia confundido suas prioridades, agora, em um dos momentos mais dramáticos de sua vida, a morte de seu irmão, nos dá uma lição de lucidez e compreensão teológica.

Nessa ocasião, enquanto é Maria que fica em casa, Marta corre ao encontro de Cristo (Jo 11:20) e faz uma magnífica confissão acerca de sua fé. Confissão digna de nota que expressa o conhecimento que aquela mulher tinha do seu Salvador. As circunstâncias são difíceis, mas Marta não hesita em declarar a sua fé e faz uma das declarações mais profundas e diretas sobre Cristo, extremamente idêntica à posterior confissão cristológica de Pedro.

Marta reconhece Jesus Cristo como Senhor, Messias e Filho de Deus. O tempo verbal de sua afirmação “eu creio” (11:27) indica uma fé firme e segura “Tenho crido e continuarei crendo”.

Marta nos deixa uma incrível lição sobre a PROFUNDIDADE e firmeza de sua fé e conhecimento de Cristo.

As perguntas que se apresentam são:
Como temos aproveitado as POSSIBILIDADES que Deus nos concede?
Qual a nossa POSTURA com relação ao Mestre?
Quais são as nossas PRIORIDADES?
Quão PROFUNDA é a nossa fé?
Quão PROFUNDO o nosso conhecimento de Cristo?

Que possamos aprender com o melhor de Marta e Maria.
Que tenhamos a postura de verdadeiras discípulas.
Saibamos administrar nossas prioridades.
Tenhamos fé e conhecimento profundos do nosso Deus.

“Fiel às ordens do meu Senhor,
Escolheria o que há de melhor:
Servir como Marta, com cuidadosa mão,
E como Maria, com amoroso coração”
Charles Wesley


Um abraço carinhoso,
Renata Veras

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Nota:

1. Muito frequentemente a Bíblia é acusada de machismo, de discurso patriarcal. Tanto o AT, com suas leis e narrativas muitas vezes mal compreendidas, quanto o NT com os ensinamentos de Paulo – o terror dos movimentos de emancipação feminina - são tidos como opressores e misóginos.

Para os que pensam assim, a figura de Cristo aparece, então, como um sopro de esperança para a mulher, com uma postura de quebra de paradigmas, com uma atitude inovadora e revolucionária. Com relação a isso, é importante levar em consideração pelo menos duas coisas para não cairmos em erro e não perdermos a unidade do ensino das Escrituras.

1.Toda atitude errada para com as mulheres no meio do povo de Deus estava enraizada na compreensão errada dos desígnios divinos para homem e mulher e no pecado que manchou as relações entre homem e mulher e não no plano perfeito do Criador. Essa tradição não vem do antigo testamento – a bíblia é unânime na valorização e dignificação da mulher

2.Cristo não vem revogar a lei, negar o AT ou algo do tipo. Cristo vem para cumprir a lei. Cristo vem para explicar, elucidar e consertar muito da aplicação errada (por ignorância ou por pecado) dos princípios eternos e imutáveis estabelecidos por Deus Pai no princípio de todas as coisas. Cristo não nega a forma organizada que o Pai estabeleceu para homens e mulheres. Cristo não traz ou estabelece um lugar novo para a mulher. Ele simplesmente mostra através de seu próprio exemplo o que Deus sempre intencionou. Ele lança luz sobre a atitude errada e pecaminosa de muitos com. Ele não traz um ensino novo, mas corrige a interpretação errada














Notas:

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5 comentários

  1. De grande aprendizado para mim este estudo.

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    1. Que bom, Eronilce! Fico muito feliz. Deus seja louvado!
      Abraço carinhoso, Renata Veras.

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  2. Respostas
    1. Amém! Deus seja louvado! Continue por aqui ;)
      Bjs, Renata

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  3. Que texto abençoado, Deus seja louvado pela sua vida!

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